a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Como tornar o mercado financeiro sócio da inflação (04/04/2014)

Por Luís Nassif

O chamado modelo neoliberal conseguiu impingir diversos mitos ao país. Por exemplo, a ideia de que bastaria um ajuste fiscal rigoroso e plena liberdade para os capitais para se obter o crescimento eterno. Ou a ideia dos déficits gêmeos – a de que o equilíbrio fiscal asseguraria automaticamente o equilíbrio externo.

Foi essa bobagem, aliás, que fez a Standard & Poor’s cobrir de elogios a Argentina poucos dias antes da sua quebra, com Domingo Cavallo.

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Mas não existe tema onde se casou melhor sofisma econômico e esperteza do que o modelo de metas inflacionárias, trazido para o país por Armínio Fraga, no governo FHC, e preservado com fé cega pelos governos Lula e Dilma.

Trata-se de um modelo simples, como um produto da TelexFree.

Se a inflação aumenta, é porque a demanda está aquecida. Logo, há que se desaquecer a demanda. Para tanto, o instrumento de que o Banco Central dispõe é o encarecimento do crédito. Com menos crédito haverá menos demanda e os preços cairão.

Em cima disso, montou-se a maior máquina caça-níquel da história: o BC fixa uma meta inflacionária; quando aumentam as expectativas em relação à inflação, ele aumenta a taxa básica de juros.

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A inflação sobe, pressionada pelo aumento dos preços de alimento. Nada a ver com o excesso de demanda. Aí o BC aumenta a taxa Selic. O impacto sobre o custo do dinheiro é mínimo. Mas os ganhos do mercado financeiro são maiúsculos. Cada vez que aumenta a inflação, o mercado financeiro ganha. Ou seja, a mais influente voz da economia – os analistas do mercado financeiro – tornaram-se sócios da inflação. Analise o aumento de quarta-feira passada – 0,25 ponto de aumento na taxa anual. Esse percentual equivale a 0,0208 de aumento na taxa mensal.

Suponha um financiamento de R$ 1.000 por 12 meses a uma taxa (módica) de 2% ao mês. Resultará em uma prestação de R$ 94,35. Supondo que todo o aumento da Selic seja repassado para a prestação, seu valor subirá para R$ 94,45 – 10 centavos a mais. Se fosse uma compra de R$ 10.000, seria R$ 1,00 a mais.

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O BC possui inúmeras outras ferramentas para conter o crédito. Tem o compulsório – pelo qual obriga bancos a recolherem parte dos depósitos ao BC. Pode reduzir prazos de financiamento, exigir entradas maiores, criar taxas sobre as operações, todas medidas com resultados muito mais efetivos.

Ocorre que nenhuma dessas medidas proporciona ganhos ao mercado. Pelo contrário.

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Embora não tenha nenhum impacto sobre o custo do crédito, o aumento da Selic atrai investimentos externos especulativos. Há um aumento da entrada de dólares que provoca uma apreciação do real – tudo o que o país não precisa para enfrentar o formidável aumento do déficit do balanço de pagamentos. A apreciação do real ajuda, durante algum tempo, a segurar os preços, com todas as contra-indicações conhecidas – aumento do rombo externo, invasão de importados, desindustrialização.

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Aí o mercado saúda como se o BC tivesse de acordo com a fronteira do conhecimento econômico. E essa extravagância – de usar a Selic para combater a inflação via apreciação do câmbio – é tão científico quanto, antigamente, o uso de sanguessugas para reduzir a febre do paciente.

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Informação

Publicado em 13/05/2014 por em Carta Capital, Economia, Luís Nassif.
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