a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Quanta riqueza (09/05/2014)

Por Paul Krugman

A mais recente “lista dos ricos” da Institutional Investor saiu em sua revista “Alpha”, revelando os 25 administradores mais bem pagos de fundos de hedge – a revelação é a de que esses caras ganham muito dinheiro. Surpresa!

Mas antes que descartemos a reportagem como novidade nenhuma, vamos pensar sobre o que significa o fato de que esses 25 homens (sim, são todos homens) tenham faturado um total agregado de US$ 21 bilhões em 2013. Pensemos, especialmente, sobre como sua boa sorte refuta diversos mitos populares sobre a desigualdade de renda nos Estados Unidos.

Primeiro, a desigualdade moderna não se relaciona à educação universitária, mas à oligarquia. Os apologistas da desigualdade descontrolada quase sempre tentam disfarçar as gigantescas rendas das pessoas verdadeiramente ricas ocultando-as em um grupo formado por outras pessoas simplesmente afluentes. Em lugar de falar sobre o 1% mais rico ou o 0,1% mais rico, falam sobre a alta da renda das pessoas com diplomas universitários, ou quem sabe sobre os 5% mais ricos da população. O objetivo dessa manobra de camuflagem é abrandar o quadro, e fazer parecer que estamos falando sobre profissionais comuns do ramo executivo, que sobem em função da educação que conquistam e do trabalho árduo.

Mas há muitos norte-americanos com bom nível educacional e que trabalham com afinco. Por exemplo, os professores. No entanto, eles não recebem salários astronômicos. No ano passado, os 25 administradores de fundo de hedge que constam da lista ganharam mais dinheiro do que todos os professores norte-americanos de pré-escola combinados. E não, nem sempre foi assim: o vasto golfo que separa a classe média alta e as pessoas verdadeiramente ricas só emergiu no governo Reagan.

Segundo, ignore a retórica sobre “criadores de empregos” e coisas assim. Os conservadores querem levá-lo a acreditar que as grandes recompensas, nos Estados Unidos modernos, são reservadas aos inovadores e empreendedores, pessoas que criam empresas e promovem o avanço da tecnologia. Mas não é isso o que os administradores de fundos de hedge em questão fazem para ganhar a vida; o negócio deles é a especulação financeira, que John Maynard Keynes caracterizou como “antecipar o que a opinião média espera que a opinião média venha a ser”. Ou, já que eles obtêm grande parte de sua renda das tarifas e comissões pagas por clientes, o negócio deles na realidade é o de convencer as demais pessoas de que são capazes de antecipar a opinião média sobre a opinião média.

No passado seria possível argumentar de cara lavada que todas essas negociatas eram produtivas, que a elite financeira de fato produzia serviços para a sociedade que eram comensuráveis com as recompensas que lhe cabiam. Mas, a esta altura, as provas sugerem que os fundos de hedge são mau negócio para todos exceto as pessoas que os administram; não propiciam retornos altos o suficiente para justificar as tarifas elevadas que cobram, e são uma fonte importante de instabilidade econômica.

Em termos mas amplos, continuamos vivendo à sombra de uma crise causada pelo descontrole do setor financeiro. A catástrofe completa só foi evitada por meio de um resgate aos bancos financiado pelos contribuintes, mas ainda não estamos nem perto de cobrir as perdas de empregos, da ordem de milhões de postos de trabalho, e as perdas econômicas, da ordem dos trilhões de dólares. Dado esse histórico, você realmente deseja alegar que as pessoas mais bem pagas dos Estados Unidos – quase todas ou gestores financeiros ou executivos de grandes empresas – são heróis da economia?

Por fim, um estudo atento da lista dos ricos ajuda a sustentar a tese tornada famosa por Thomas Piketty em seu livro “Capital in the Twenty-First Century” – a saber, a de que estamos a caminho de uma sociedade dominada pela riqueza, boa parte da qual hereditária, e não pelo trabalho.

À primeira vista isso pode não parecer evidente. Os membros da lista dos ricos são, afinal, homens que se fizeram sozinhos. Mas em geral eles se fizeram muito tempo atrás. Como aponta Matt Levine, da “Bloomberg View”, a renda de muitos dos mais conhecidos administradores de fundos não vêm de investir o dinheiro alheio mas do retorno sobre sua riqueza acumulada – ou seja, a razão para que ganhem tanto é o fato de que já são muito ricos.

E esse é um desdobramento inevitável, se você pensar bem. Com o tempo, a extrema desigualdade de renda resulta em extrema desigualdade de riqueza. De fato, nos Estados Unidos, a proporção da riqueza nacional que cabe ao 0,1% mais rico da população está de volta ao nível da Gilded Age. Isso, por sua vez, significa que as rendas altas vêm cada vez mais de investimentos e não de salários. E é só questão de tempo para que heranças se tornem a maior fonte de grandes riquezas.

Os Estados Unidos têm uma longa tradição de impor tributos elevados às grandes rendas e grandes fortunas, concebidos para limitar a concentração de poder econômico e para elevar a arrecadação. Hoje em dia, porém, sugestões de que retomemos essa tradição atraem alegações ferozes de que tributar os ricos é destrutivo e imoral – destrutivo porque desencoraja os criadores de empregos de criarem empregos, imoral porque as pessoas têm o direito de manter aquilo que ganham.

Mas essas alegações repousam, crucialmente, sobre mitos quanto a quem realmente são os ricos e como eles ganham seu dinheiro. Da próxima vez que você ouvir alguém declamando o quanto é cruel perseguir os ricos, pense sobre esses caras dos fundos de hedge e se pergunte se realmente seria tão terrível que eles pagassem mais impostos.

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Informação

Publicado em 19/05/2014 por em Economia, Folha de São Paulo, Paul Krugman.
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