a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Os assaltos na Virada Cultural e a lógica do medo (21/05/2014)

Por Paulo Motoryn

Pelo que se pôde perceber nas páginas virtuais e impressas dos principais veículos de comunicação da cidade, as 24 horas da Virada Cultural deste ano em São Paulo tiveram um saldo não muito diferente do que as das últimas dez edições. Na cobertura jornalística, foi novamente nítida, apesar de talvez inconsciente, a tentativa de captar absolutamente todas as movimentações criminosas e resumir o evento aos arrastões que acontecem no centro e assustam cidadãos desacostumados com a região mais antiga da cidade e aversivos às aglomerações humanas.

Não que os delitos devessem ser ignorados, tampouco tolerados, mas é clara a intencionalidade da imprensa ao ressaltar a violência. Faz parte de um projeto político complexo, que tem no medo uma das grandes armas para a normatização da vida humana de acordo com o desejo das elites. A professora Elaine Tavares, em coluna no “Brasil de Fato”, aponta que “além da sedução para o reino das coisas, o sistema capitalista precisa atuar em outra área na vida humana, para poder garantir a perpetuação do círculo. Há que incutir o medo do outro, para estimular a competição”.

A cultura do medo está longe de ser algo abstrato. Um olhar mais atento à política institucional traz uma curiosidade: nos últimos seis anos, há intensa participação da indústria nacional de armas no financiamento de campanhas de parlamentares. Os R$ 2,4 milhões doados por empresas do ramo nas eleições de 2010 – contando apenas as doações diretas, sem investigar os mecanismos de maquiagem – são apenas um dos elementos que se relacionam à insistente tentativa dos noticiários em introjetar uma constante sensação de insegurança na população, mesmo que isso não corresponda aos números e ao clima das ruas. Os projetos de lei que pipocam no Congresso sugerindo aumento nas concessões de portes de armas também não são por acaso.

Mas tudo bem: voltemos à Virada Cultural e ao #mimimi dos que perderam seus preciosos corações – quero dizer, celulares. Os assaltos e arrastões na Virada Cultural, repercutidos não só nos grandes veículos, mas em revoltadas postagens nas redes sociais, não são encarados como resultado de um evento que agride uma região da cidade deteriorada e por vezes esquecida pelo poder público. Também não são tratados, obviamente, como produto de uma cidade marcadamente desigual e desumana, que criminaliza o jovem pobre antes mesmo que ele pense em tornar-se um criminoso – um ladrão de galinhas, diga-se de passagem, tendo em vista a incidência de crimes muito mais danosos à sociedade entre os ricos e engravatados.

Os crimes cometidos na Virada são utilizados como muletas para fomentar a repulsa à ocupação do espaço público, o preconceito, a intolerância. Nada mais irônico: o banditismo, que, se bem analisado, poderia escancarar as contradições de classe e o abismo social, é incorporado pela ideologia dominante para sua própria argumentação política. O cidadão, submetido ao bombardeio midiático, só consegue ver a impunidade – no quarto país com a maior população carcerária do planeta – e ter a pretensa certeza de que somos reféns de uma violência sem solução. É por aí, e não apenas com as Sherazades, que nasce o fenômeno dos “justiceiros”, que acreditam fazer o certo com as próprias mãos.

Como nos lembra a obra de Foucault, a violência é resultado das relações de poder, da lógica e da racionalidade que programa e orienta a conduta humana, perpassa e atravessa as instituições e relações políticas e estrutura o funcionamento do poder. É a existência do poder, seja lá como ele se concretize, que deve ser combatida. Se seu celular foi furtado na Virada Cultural e você deseja que isso não mais ocorra, reflita, antes de berrar, gritar e espernear. Afinal, esse é o grotesco e tolo papel da imprensa, parte de um fenômeno previsto pelo lendário Joseph Pullitzer, jornalista húngaro-americano falecido no início do século passado: “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 22/05/2014 por em Paulo Motoryn, Política, Revista Fórum, Urbanismo.
%d blogueiros gostam disto: