a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Cara, eu ganho. Coroa, você perde! (07/08/2014)

Por Guilherme Boulos* (publicado na Folha de São Paulo)

A elite brasileira é intransigente. Não aceita concessões, por menores que sejam. Qualquer pequeno incômodo é tratado como abalo sísmico por seus representantes no poder de Estado, na mídia e em seu habitat natural, o mercado financeiro.

O inofensivo decreto 8.243 é acusado de bolivarianismo. Os gastos federais com assistência social, que correspondem a menos de 4% do Orçamento da União, são apresentados como perigoso risco fiscal. O governo petista não atacou nenhum de seus privilégios, mas quando Dilma sobe a Bolsa cai.

A bola da vez agora parece ser o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e a luta popular por moradia. As ocupações urbanas tiveram um crescimento expressivo desde 2013, motivadas pelo aumento insano do valor dos aluguéis. Isso levou o movimento às ruas e ampliou a pressão sobre o poder público.

Pressão legítima e democrática, que é a forma que se conhece historicamente para o Estado atender os interesses dos mais pobres.

Vieram algumas vitórias. Poucas, aliás. A liberação de recursos para compra de terrenos e financiamento de obras de moradia, a criação de uma comissão para mediação de conflitos em despejos e o aprimoramento de normativas do programa Minha Casa, Minha Vida.

Pronto, foi o suficiente para despertar a ira da turma do eixo Higienópolis – Jardins. O Ministério Público de São Paulo entrou com três ações para investigar os “privilégios” do MTST. Choveram editoriais contra os novos “donos da política habitacional”. E, naturalmente, matérias com denúncias e ataques para os mais variados gostos.

E vejam que o MTST não conseguiu sequer arranhar a estrutura da política habitacional brasileira. Suas conquistas foram pontuais. Significaram um fortalecimento tímido da modalidade Entidades do Minha Casa Minha Vida, onde a gestão do projeto e obra é feita pelos futuros moradores, ao invés de empreiteiras. Porém, esta modalidade permanece sendo uma pequena gota no oceano. Mais de 95% das moradias do programa são feitas por meio de construtoras.

O setor imobiliário e da construção civil continua dando o tom e definindo as regras da política habitacional brasileira. Detêm os terrenos e controlam a maioria dos financiamentos públicos do Minha Casa, Minha Vida. São os grandes interlocutores do Estado em todos os seus níveis, até por serem os maiores financiadores de campanha eleitoral do país. Mas os “privilegiados”, os “donos da política habitacional” são os militantes do MTST.

As conquistas obtidas pelo MTST de 2009 a 2014, no Brasil todo, não chegam a 8.000 moradias, somando as contratadas e as somente acordadas. Só a MRV Engenharia, nos primeiros dois anos do programa, recebeu financiamento público para 40 mil moradias. Apenas entre 2009 e 2011! E estamos falando de uma construtora das dezenas que recebem financiamento pelo programa. Quem manda mesmo na política de habitação?

Mas para os donos do poder mesmo isso é demais. Resolveram então partir para o ataque. Na vanguarda, como sempre, a revista “Veja”, maior especialista em desmoralização sem fatos.

A indústria de escândalos e factoides da revista “Veja” é de uma produtividade inquestionável. Quando há fatos, distorcem e amplificam de acordo com seu interesse. Quando não há os criam. É desnecessário retomar exemplos como o famoso grampo sem áudio no STF ou a entrevista com o líder forjado das manifestações de junho. O jornalista Luis Nassif, em seu dossiê “O Caso Veja” (veja aqui), já desmascarou em minúcias o padrão “Veja” de fabricação de mentiras, seus métodos inescrupulosos e suas relações promíscuas com o poder econômico.

Atacar movimentos populares não é novidade para a mídia hegemônica no país. O MST foi seu alvo predileto durante muitos anos. Mas a “Veja” dá sempre um passo além. Faz descaradamente o que os demais fazem apenas nas entrelinhas.

Os argumentos que usou no recente ataque ao MTST são sintomáticos de seu método. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto é uma “indústria de ocupações” por organizar a participação de seus membros com listas de presença. E as ocupações são uma “farsa” porque as pessoas não moram definitivamente nelas.

São casos exemplares do cinismo argumentativo que tem como lema: Cara, eu ganho. Coroa, você perde.

Se o MTST não tivesse nenhum tipo de controle e organização de quem participa seria acusado de descriterioso. Como se organiza por listas e cadastros, para definir legitimamente sua demanda, é acusado de ser “indústria de ocupações”.

O caso dos barracos nas ocupações, também ecoado por esta Folha, é ainda mais emblemático. As pessoas que ocupam um terreno normalmente não estavam em situação de rua. Tinham um local anterior, embora muito precário: um pequeno cômodo, um barraco numa área de risco ou uma casa na qual não conseguem mais pagar aluguel.

A metodologia do MTST implica não estimular as famílias a romperem este vínculo precário de moradia. Se as milhares de famílias que participam de ocupações, buscando uma condição mais digna de vida, fossem morar definitivamente lá, com todos seus pertences, o resultado seria a criação em larga escala de novas favelas.

As ocupações têm o sentido de pressão sobre a especulação imobiliária e o poder público para fazer andar a política habitacional, não a favelização. Por isso, a proposta das pessoas não morarem definitivamente nelas. Se o MTST fizesse o contrário seria acusado de “indústria de favelas”, “loteador clandestino” etc.

Ou seja, não há saída quando o jornalismo é viciado. Os interesses são impermeáveis aos argumentos. Quando a ordem é atacar e desmoralizar prevalece sempre o cinismo: Cara, eu ganho. Coroa, você perde!

 * Guilherme Boulos, professor, filósofo e psicanalista, é coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto.

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Publicado em 07/08/2014 por em Direitos Humanos, Folha de São Paulo, Guilherme Boulos, Urbanismo.
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