a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Cantata para tucano a quatro mãos (12/09/2014)

Por Antônio Marcos Capobianco

Quando chegou ao poder, o PSDB inebriou-se com o pensamento único vigente, radicalmente neoliberal, tomando rumo tão à direita que nunca chegou a fazer jus à social-democracia que lhe dá nome.

“Vamos dar um choque de capitalismo no Brasil!”, decretaram. Encarnavam a própria “mão invisível” de Adam Smith, que, com o tempo, viu-se materializar-se na “mão leve” da improbidade, e hoje tem contado com a “mão amiga” da mídia e com a “mãozinha” da Justiça.

Há os anti-PT/pró-PSDB que, apenas néscios, ignoram os malfeitos dos tucanos. E há, por formação, os somíticos: posição antidistributiva, individualismo acima da solidariedade. Vociferam contra o Bolsa Família. O Ipea mostra que um gasto no programa de 1% do PIB gera aumento de 1,78% na atividade econômica. O programa reduziu a mortalidade infantil e em 28% a pobreza.

E sobre os malfeitos dos tucanos, o que precisam saber os desinformados? Antes, que há um ranking da corrupção realizado pelo Movimento de Combate à Corrupção, no qual o PT figura em 10º lugar, enquanto o PSDB está em 3º e, em 1º, o seu irmão xifópago, o Democratas.

E precisam saber do que descreve, fundamentado em documentos públicos, o jornalista Amaury Ribeiro Jr. no livro “A Privataria Tucana” (ed. Geração Editorial). Mais de 15% do Produto Interno Bruto –cerca de R$ 660 bilhões– foi repassado para o capital privado.

Com passivos assumidos pelo governo, as empresas foram compradas com dinheiro subsidiado do BNDES e com moeda podre. Arrecadaram mais de R$ 240 bilhões –para abater a dívida–, mas, no governo tucano, ela subiu de 30% para 62% do PIB.

Em 1997, a Vale do Rio Doce foi vendida por R$ 3,5 bilhões, e logo depois avaliada em R$ 450 bilhões. “A maior roubalheira da história da República”, ponderou Jorge Furtado. “Os tucanos, no governo, vendendo a preço de banana, e no mercado, comprando as empresas”. Elio Gaspari aduziu: “Grampos telefônicos, editais self-service, consórcios incestuosos e contratos de gaveta deram componentes escandalosos ao processo”.

A trajetória do PSDB está envolta em denúncias que pairam no limbo da Justiça. Na Assembleia Legislativa paulista, CPIs encalham. Escândalos no transporte e, no saneamento, a falta de manutenção que gera perda de 25% da água tratada deve-se também à disputa interna por contratos. Agora, descobre-se fortuna em bens e em conta na Suíça e na offshore Higgins Finance.

Nos oito anos de governo federal, o PSDB deixou também a marca da incompetência. Os tucanos quebraram o país duas vezes. Cresceram a pobreza e a desigualdade, com prolongada recessão, epidemias, 50 milhões de miseráveis e 12 milhões de desempregados.

FHC deixou dois problemas robustos que têm inviabilizado o crescimento: uma carga tributária bruta de 36% e uma dívida líquida/PIB de 56%, explicou Antonio Delfim Netto. “Em quatro anos, acumulamos um deficit em conta-corrente da ordem de U$100 bilhões! O resultado foi trágico”.

Agora, a hipótese funesta e remota da volta do PSDB ao governo federal remete ao fim do controle estatal de Petrobras, Furnas, Banco do Brasil, Caixa etc. E teme-se pelo destino do que se tem feito por um Brasil mais justo socialmente, sétima economia do mundo e destacada geradora de empregos.

ANTÔNIO MARCOS CAPOBIANCO, sociólogo, é autor de “Relações Intergovernamentais na Metrópole – Adequação Institucional para a Ação” (IEA/USP)

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Informação

Publicado em 12/09/2014 por em Economia, Folha de São Paulo, Política.
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