a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

A sociedade exibicionista (01/10/2014)

Por Paul Krugman, na Folha de São Paulo.

Os progressistas falam sobre circunstâncias. Os conservadores falam sobre caráter.

Essa divisão intelectual fica mais evidente quando o assunto é a persistência da pobreza em um país rico. Os progressistas se concentram na estagnação dos salários reais e no desaparecimento de empregos que oferecem renda de classe média, bem como na constante insegurança que surge quando a pessoa não tem emprego confiável ou propriedades. Para os conservadores, porém, tudo gira em torno de as pessoas não se esforçarem o suficiente. John Boehner, o presidente da Câmara dos Deputados norte-americana, diz que as pessoas têm a ideia de que “elas na verdade não precisam trabalhar”. Mitt Romney ralha com os norte-americanos de baixa renda, declarando que eles não estão dispostos a “assumir responsabilidade pessoal”. E mesmo ao declarar que realmente se preocupa com os pobres, o deputado Paul Ryan atribui a pobreza persistente a uma falta de “hábitos produtivos”.

Sejamos justos, porém: alguns conservadores estão disposto a censurar os ricos, igualmente. Um traço comum a boa parte dos escritos conservadores recentes é o tema de que a elite norte-americana não está à altura de sua tarefa, e que perdeu a seriedade e a contenção do passado. Peggy Noonan escreve sobre nossa “elite decadente”, e suas piadas sobre a vantagem que tira das pessoas comuns. Charles Murray, cujo livro “Coming Apart” trata principalmente da suposta decadência de valores da classe trabalhadora branca, também denuncia a “falta de compostura” dos muito ricos, com seu estilo de vida luxuoso e suas casas gigantescas.

Mas será que estamos passando, de fato, por uma explosão na ostentação da elite? E, caso isso esteja acontecendo, será que reflete um declínio moral ou uma mudança de circunstâncias?

Acabei de reler um notável artigo intitulado “como vivem os grandes executivos”, publicado originalmente pela revista “Fortune” em 1955 e reimpresso dois anos atrás. É um retrato da elite dos negócios norte-americana duas gerações atrás, e, ao que parece, a vida da elite em gerações anteriores era de fato mais contida, ou, se você preferir, exibia mais compostura do que a dos atuais Mestres do Universo.

“A casa do executivo, hoje”, nos diz o artigo, “tende a ser despretensiosa e relativamente pequena – talvez sete aposentos, e mais dois banheiros e um lavabo”. O executivo importante tem dois carros “e se vira com apenas um ou dois empregados domésticos”. A vida era contida também de outras maneiras: “Nos escalões mais altos do mundo dos negócios norte-americano, relacionamentos extraconjugais não são importantes a ponto de merecer discussão”. Na verdade, tenho certeza de que havia muito rala e rola, mas as pessoas não ostentavam o fato. A elite de 1955 pelo menos fingia servir como bom exemplo de comportamento responsável.

Mas antes que você lamente o declínio nos padrões, há algo que deveria saber. Ao celebrar a sóbria e modesta elite dos negócios norte-americana, a revista “Fortune” a descrevia como relativa novidade. O artigo contrastava as casas e barcos modestos de 1955 com as mansões e iates de uma geração anterior. E por que a elite havia deixado para trás a ostentação do passado? Porque já não podia bancar uma vida como aquela. O grande iate, revela “Fortune”, “naufragou no mar da tributação progressiva”.

Mas esse mar mudou, de lá para cá. Iates gigantescos e casas enormes estão de volta. De fato, em lugares como Greenwich, Connecticut, algumas das “mansões desmedidas” que a revista descrevia como relíquias do passado foram substituídas por mansões ainda maiores.

E não há mistério sobre o que aconteceu aos velhos e bons dias de comportamento contido por parte da elite. Basta seguir a trilha do dinheiro. A extrema desigualdade de renda e os impostos baixos para os mais ricos estão de volta. Por exemplo, em 1955, os 400 norte-americanos de mais alta renda pagavam mais da metade do que ganhavam em impostos federais, mas hoje em dia a proporção é de menos de 20%. E o retorno da grande riqueza tributada levemente trouxe o inevitável retorno da ostentação como a que a havia na chamada Era Dourada [o período de grande expansão do capitalismo nos Estados Unidos entre 1870 e 1900].

Há alguma chance de que exortações morais, apelos a que eles sirvam como exemplo, possam induzir os muitos ricos a deixar de lado o exibicionismo? Não.

Não se trata apenas do fato de que pessoas que podem bancar uma vida luxuosa no geral tendem a fazê-lo. Como nos disse Thorstein Veblen muito tempo atrás, em uma sociedade altamente desigual, os ricos se sentem obrigados a conduzir “consumo conspícuo”, gastando de maneira muito visível a fim de demonstrar sua riqueza. E a moderna ciência social confirma essa percepção. Por exemplo, pesquisadores do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) demonstraram que pessoas que vivem em bairros de alta desigualdade apresentam maior propensão a comprar carros de luxo do que as pessoas que vivem em ambientes mais homogêneos. É bastante claro que a alta desigualdade traz uma percepção de que é necessário gastar dinheiro de maneira que sinalize status.

O ponto é que, embora criticar os ricos por sua vulgaridade possa não ser tão ofensivo quanto ralhar com os pobres por suas falhas morais, é igualmente fútil. Já que a natureza humana é o que é, seria tolo esperar humildade de uma elite altamente privilegiada. Assim, se você acredita que nossa sociedade precisa de mais humildade, deveria apoiar políticas que reduzam os privilégios da elite.

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Publicado em 01/10/2014 por em Economia, Folha de São Paulo, Paul Krugman.
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