a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Tem pessoas maravilhosas do lado de lá (19/01/2015)

Por Gregório Duvivier (na Folha de São Paulo).

Minha avó tinha os cabelos cor de fogo e customizava suas havaianas com as conchas que ela catava no mar de Ipanema. Mergulhou no mar todo dia da sua vida, até morrer, aos 92 anos.

Quando se formou em sociologia, nos anos 1930, era a única mulher da faculdade. Foi mãe de três filhos biológicos e de uns 30 filhos adotivos, dentre os quais alguns meninos de rua, pra quem ela insistia em ensinar xadrez.

Fabio tinha 15 anos, mas parecia nove. Tentou levar a bolsa da minha avó. Terminou na casa dela, em frente a um tabuleiro, comendo biscoitos de gengibre (acho que ele não foi salvo pelo xadrez, mas pelos biscoitos de gengibre). Daniel, filho do porteiro do seu prédio, passava as tardes na portaria, entediado. Minha avó cismou que ele tinha que pintar. Comprou quadros, tinta e lhe dava aulas todo dia –hoje, Daniel é artista plástico.

Quando meus pais viajavam, ela se mudava lá para casa e as regras mudavam imediatamente. Todo dia era dia de batata frita, banana frita e alho cru, picadinho –um santo remédio para doenças que não tínhamos. Quando alguém não queria ir para a escola, não ia. Passava o dia com ela jogando xadrez, pintando com o dedo, aprendendo a tocar piano.

No piano, misturava Bach, Beethoven e marchinhas de Carnaval, algumas de sua autoria (“Funciona/Que eu quero ver/Quem não funciona/Não pode sobreviver”, “Vovô não gostava de Carnaval/Quando ouvia um samba até passava mal”). Além de compor marchinhas, era escultora (fez o John Lennon da UnB), pianista (tocou um Ernesto Nazareth para o Ernesto Nazareth, que lhe ensinou “como é que se tocava um Ernesto Nazareth”) e astrônoma amadora (escreveu um tratado de cosmogonia sem nenhum embasamento científico, mas de grande valor poético). Pulou de asa-delta no aniversário de 80 anos (mentiu que tinha 70) e começou a fumar maconha com 85, arrependida de não ter começado antes.

Escrevo sobre ela porque queria que vocês soubessem que ela foi uma pessoa maravilhosa, a melhor que conheci –mas, pasmem, amava o Collor, um grande injustiçado, tinha devoção pelo César Maia (fez uma escultura dele vestido como Júlio César) e escrevia cartas para o jornal pedindo maior participação das forças armadas na sociedade.

Em tempos de ódio, outro dia surgiu a pergunta no Facebook: o que fazer com os amigos que curtem a página do Bolsonaro? Pensei (não sem engulhos) que a minha avó talvez fosse uma dessas pessoas. E me lembrei de que tem pessoas maravilhosas do lado de lá. Bloquear não pode ser a solução. Vamos trazer as diferenças para perto, tocar marchinha, oferecer biscoito de gengibre –sem perder a ternura jamais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Informação

Publicado em 03/03/2015 por em Folha de São Paulo, Gregório Duvivier, Política.
%d blogueiros gostam disto: