a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Pessoas muito, muito, muito ricas (09/03/2015)

Por Rubens Godoy Sampaio.

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No Brasil, há pessoas muito, muito, muito RICAS.

Elas são poucas. Elas são muito, muito, muito POUCAS.

E elas vão muito, muito, muito BEM. Obrigado!

Agora, alguém pode me responder como é que isso pode acontecer num regime democrático, no qual cada cabeça vale um voto?

Como é que um grupo muito, muito, muito pequeno, uma minoria, minoria mesmo, consegue viver muito, muito, muito bem, num regime democrático no qual CADA CABEÇA VALE UM VOTO e num país em que a grande maioria é de pessoas pobres e de classe média?

Qual é o mistério? Como é feita essa conta?

Como é que as 20 mil famílias mais ricas do país podem ter seus interesses garantidos em detrimento de outros 142 milhões de eleitores? A diferença é muito grande. Como isso acontece?

Como é que 0,05% da população brasileira consegue ter seus interesses SEMPRE preservados, em prejuízo dos outros 99,95%? Quem são os capatazes dessa camada muito, muito, muito rica?

A minha perplexidade não é nem tanto pela disparidade desses números. A minha perplexidade decorre do fato de que muita gente não percebe isso. Muita gente não percebe que há um disparate entre a PREDOMINÂNCIA dos interesses de uma MINORIA super-rica e o descaso pelos interesses de TODO O RESTO DA POPULAÇÃO, incluindo os pobres, a classe média e até mesmo a classe média alta. Sim… Eu também incluo a classe média alta. E eu vou dizer por quê. Os muito, muito, muito ricos estão muito, muito, muito distantes das classes médias (alta, média ou baixa).

Os muito, muito, muito ricos são milhões de vezes mais ricos que a classe média alta. E a classe média alta é mais rica apenas alguns milhares de vezes a mais que os mais pobres.

Isso significa duas coisas muito importantes:

1. há uma concentração de renda absurdamente grande nas mãos de pouquíssimas famílias. E isso não é novidade.

2. toda a classe média, e até mesmo a classe média alta está economicamente mais próxima dos mais pobres do que dos muito, muito, muito ricos. Dizendo de outro jeito: os muito, muito, muito ricos são tão ricos que a distância que existe entre os muito ricos e a classe média é maior do que a distância econômica que separa a classe média dos mais pobres.

3. E aqui está um ponto muito importante desta singela reflexão. As políticas públicas que atendem os mais pobres não refletem no patrimônio dos muito, muito, muito ricos. MAS REFLETEM NO PATRIMÔNIO E NA VIDA DA CLASSE MÉDIA. Ou seja, as políticas públicas que beneficiam os pobres também beneficiam a classe média. E apesar disso a classe média que assiste o jornal nacional e lê os hebdomadários nacionais, manipulada como sempre foi, defende políticas públicas que são favoráveis apenas para os muito, muito, muito ricos.

E o reverso também é verdadeiro, sobretudo porque os muito, muito, muito ricos são RENTISTAS, são famílias que vivem de renda, de juros. São famílias que não precisam viver do trabalho. E até mesmo a classe média alta, constituída por executivos de grandes empresas, profissionais liberais, artistas são pessoas que trabalham. São TRABALHADORES. São pessoas que se ficarem sem o seu trabalho, também vão ficar sem o seu sustento. Se para ganhar R$ 20.000,00 (vinte mil reais por mês) ou R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) o advogado, o juiz, o dentista e o médico precisam trabalhar, é porque eles são TRABALHADORES. Sua maior fonte de riqueza é o seu suor.

Mas esta classe média (média, alta) não suporta encarar o fato de que ela está mais longe dos ricos do que dos pobres. Talvez ela nem saiba disso. E como alguém hipnotizado e ludibriado a classe média se comporta como se os interesses dos mais ricos fossem os seus próprios interesses. E sem o saber, ao invés de defender os próprios interesses, defende os interesses de uma minoria predadora e truculenta, mas nada ingênua e muito astuta.

É por isso que nos sistemas totalitários a classe média é a classe mais fácil de cooptar. Em primeiro lugar porque ela tem os instrumentos adequados para facilitar a própria cooptação: ela tem acesso a jornais e revistas e acesso à escola. A classe média é uma espécie de algoz de si mesma. Ela é uma contradição de termos. Hoje, grande parte dessa classe média estudou EMC e OSPB, Educação Moral e Cívica e Organização Política e Social do Brasil. Muitos são engenheiros, médicos, advogados, dentistas competentes que não estudaram nada de história do Brasil, nada de Sociologia, nada de Filosofia. Mesmo porque essas disciplinas foram proibidas na época da ditadura. E o efeito dessa formação precarizada e alienada tem seus resultados no longo prazo. Muito do que ouvimos saindo da boca da classe média vem da sua formação em EMC e OSPB. A sementinha foi plantada décadas atrás.

Até a indústria do fast-food sabe que o importante é dar brinquedinhos nas suas lojas de comida, para conseguir prender a criança que depois será seu cliente até a fase adulta. E que posteriormente levará os próprios filhos para se alimentar da mesma forma.

Foi muito interessante a forma como aquela empresa de brinquedos ESTRELA levantou-se da concorrência com os brinquedos eletrônicos. Ela se reergueu revendendo para os pais do século XXI, os produtos que ela vendia para as crianças das décadas de 1970 e 1980. Como ela fez isso? Ela vendeu para os pais atuais, os mesmos brinquedos com os quais eles brincaram quando eram crianças. Eu mesmo comprei o Pinote, o PULA PIRATA e o AUTORAMA, para os meus filhos. Brinquedos que ocuparam dias da minha infância.

Outro exemplo que eu gosto muito é o exemplo do catecismo e da escola dominical. Muitos adultos frequentaram o catecismo ou a escola dominical quando tinham 9 ou 10 anos de idade. E ali receberam todos os fundamentos da sua fé. E pronto. Acabou. a formação religiosa que o sujeito recebeu lhe foi transmitida quando ele tinha 10 anos de idade, com uma linguagem infantil e adequada para a sua idade. Depois na vida adulta ele nunca mais teve formação religiosa nenhuma. Ele tornou-se advogado, biólogo, dentista… e a sua fé ainda tem 10 anos de idade. O sujeito cresceu e sua fé não se tornou adulta. O que ele aprendeu nos manuais de OSPB quando tinha 12 anos ficou sendo a sua verdade a respeito do Brasil depois de 20 ou 30 anos passados.

Com a história do país é a mesma coisa. A técnica é a mesma. Muito do que aprendemos em EMC e OSPB naqueles anos, quando tínhamos 8, 10, 12 anos de idade ainda está presente no nosso imaginário de pessoas adultas. É impressionante como alguém ainda acredita no fantasma dos comunistas! Nas histórias de que vão tomar posse de nossas casas, para colocar pobres morando lá dentro. Como eu disse em outro texto, é mais fácil acreditar na loira do banheiro do que nessas lendas urbanas de comunistas comedores de criancinhas que nos impedem de ver tudo o que está diante de nós e que são mais sinais de esperança do que sinais do apocalipse.

Que 1964 foi um golpe não é novidade. Há milhares de textos tratando em detalhes de todos os bastidores daquele evento. Há filmes, há documentários, há livros… Trata-se de algo notório. Mas para saber disso é preciso ler, é preciso comparar textos, é preciso pensar. Não basta ter o William Bonner como seu professor de história, menos ainda os professores da Veja.

Está aí para todos verem…
– a pobreza não foi extirpada, mas foi diminuída.
– a democracia foi preservada
– a classe média também foi preservada. Suas casas e automóveis não foram tomados pelos comunistas vermelhos.

E além de tudo isso,
– nunca tantos políticos foram investigados.
– nunca tantos políticos foram presos.
– Num governo do próprio PT, petistas foram presos. Quando é que num governo do PMDB e do PSDB políticos do PMDB e do PSDB foram condenados e presos? NUNCA. E não adianta falar que eles não foram presos porque eles não havia corrupção porque a loira do banheiro é mais real que isso.

Hoje meu olhar sobre o Brasil é de esperança e terror. Esperança porque o país nunca foi tão passado a limpo. E isso me dá esperança de que estejamos corrigindo o rumo. É claro que muita gente vai espernear e vai tentar desautorizar quem está fazendo a faxina. Interesses espúrios estão sendo ameaçados. A sujeira não pode gostar da vassoura. E A SUJEIRA QUER CULPAR A VASSOURA PELA NECESSIDADE DA FAXINA.

E o meu olhar de terror, meu medo decorre da revolta da sujeira que não quer que a vassoura faça a faxina. A sujeira grita: “A vassoura é corrupta, incompetente”…

De toda essa conversa eu queria retirar apenas três lições:
Vamos quase desenhar, para não ficar muito difícil. Vou apresentar pequenas lições.

PRIMEIRA LIÇÃO:
1. Os muito, muito, muito ricos têm o controle dos meios de comunicação de massa.
2. E por meio das informações filtradas, distorcidas e manipuladas veiculadas pelos meios de comunicação, dezenas de milhões de brasileiros acreditam na conversa dos muito, muito, muito ricos.
3. Quando vão às urnas, eleger seus candidatos, dezenas de milhões de brasileiros não votam em seu interesse próprio. Mas, enganados, votam no interesse dos muito, muito, muito ricos.

SEGUNDA LIÇÃO
1. Às vezes acontece de os muito, muito, muito ricos sentirem medo de perder o controle da situação, porque alguma coisa ameaça dar errado, ou porque os seus candidatos não foram eleitos do jeito que eles quiseram.
2. Quando isso acontece, eles são truculentos e passam a justificar o uso da força, a instrumentalização dos militares, o golpe para retirar do poder aqueles que não simpatizam com seus interesses minoritários.
3. E mais uma vez, com o uso dos meios de comunicação de massa é possível fazer com que aqueles que acreditam de forma ingênua nas histórias contadas na Veja e no Jornal Nacional, passem a legitimar o uso da força, da truculência, das forças policiais e militares contra a população desprotegida com interesses diferentes dos interesses dos mais ricos.

TERCEIRA LIÇÃO

Essa lição é a mais difícil de todas.

A figura da pirâmide social é um engodo. Aquele triângulo equilátero que mostra os mais ricos em cima e os mais pobres em baixo é uma imagem falsa, que causa em nós certa sensação de proximidade entre a classe mais rica e a classe média. Na verdade, a melhor representação seria a de um triângulo isósceles muito, muito, muito comprido, muito alto. Este triângulo isósceles está em cima de um trapézio com a base muito, muito, muito larga.

Por causa do uso de uma forma de representação enganadora (pirâmide social na forma de um triângulo equilátero) a classe média pensa que está num lugar, quando na verdade, o desenho da pirâmide social é outro e por consequência o lugar da classe média está bem mais abaixo do lugar que ela pensava ser o lugar dela.

Portanto, para mim o mais grave do cenário atual é a surdez da classe média, que insiste em não entender qual é o seu lugar na sociedade brasileira e por causa disso, ameaça direitos conquistados, que são inclusive, direitos dela mesma. Aqui respondo uma pergunta que eu coloquei lá em cima: Os capatazes dos muito ricos são os meios de comunicação e a classe média. A classe média é capataz de si mesma. Ela meio que curte uma espécie de autoflagelação, ou de sadomasoquismo. Trata-se daquela figura do bom escravo, que acha que tem uma vida melhor que a dos outros escravos porque frequenta a Casa Grande e sabe das fofocas da Sinhazinha e do Sinhozinho. De outra forma, podemos dizer que a classe média padece de uma espécie de grave síndrome de Estocolmo, pois ama de paixão aqueles que a sequestraram de si mesma.

Na última eleição os pobres votaram em quem melhorou a situação deles. Nada mais legítimo. Votou em causa própria. É assim que funciona a democracia. Os muito, muito, muito ricos, também votaram em causa própria. Nada mais legítimo. Mas a classe média, como sempre, vota no patrão! Protege o patrão! A classe média não é classe, porque não é organizada. Ela só é uma camada populacional como características semelhantes. Mas de classe mesmo, ela não tem nada.

Enfim, o que bagunça o meio de campo, somos nós da classe média que não sabemos muito bem do que precisamos. Não sabemos exatamente quem somos. Não sabemos de onde viemos e para onde vamos. Não sabemos o que queremos. Não sabemos o que é mais seguro para nós. E colocamos nosso dinheiro no banco para ser tomado com juros, colocamos nossa cabeça na frente do televisor para que nossa mente seja sugada, destruída e guiada pela Globo, colocamos a nossa vida de galinhas sob a vigilância das raposas, votando naqueles que mais nos desprezam e que mais nos utilizam como massa de manobra, mesmo porque se não fôssemos suscetíveis a isso, a estratégia seria outra.
Não sabemos muita coisa. Mas uma coisa é certa. Os muito, muito, muito ricos precisam dos nossos votos. E nós nunca os decepcionamos, afinal se eles não existirem, não teremos mais como sonhar que queremos ser exatamente como eles são: muito, muito, muito ricos.

A classe média prefere ficar visitando a Casa Grande, a ter a sua própria liberdade conquistada. O seu maior medo é ser livre. Ser livre é terrível. A classe média não suporta isso.

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Informação

Publicado em 11/03/2015 por em Direitos Humanos, Política.
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