a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

O samba contra a violência policial (08/04/2015)

O morro não tem vez, já cantava Tom Jobim em 1965. Isso ficou claro com o episódio recente do assassinato do menino Eduardo de Jesus Ferreira, de apenas 10 anos, no Complexo de Favelas do Alemão. De acordo com o relato de sua mãe, Terezinha Maria de Jesus, Eduardo estava apenas brincando na porta de casa quando foi baleado na cabeça por um policial militar do Batalhão de Choque. Como já tinha ficado claro em 2013 quando o pedreiro Amarildo de Souza foi torturado e morto por quatro policiais militares.

Não se trata de casos isolados. A violência policial é comum no Brasil em áreas mais pobres e desfavorecidas e acontece desde sempre. A polícia faz no morro e na periferia o que jamais faria em condomínios abastados, como mostra e documenta muito bem o livro Rota 66, do excelente jornalista Caco Barcellos.

O morro não tem vez e tem pouca voz. Mas essa voz existe e se manifesta há mais de cem anos através do samba. Quem ouve o samba ouve um pouco da voz do morro. Há um século o samba vem fazendo a crônica daquele pedaço do Brasil que não sai no jornal. Já dizia Zé Kéti: “Eu sou o samba, a voz do morro sou eu mesmo sim senhor”.

Pra ilustrar o poder dessa voz, seguem abaixo três bons exemplos (dentre vários possíveis) desse samba que denuncia a violência policial contra os moradores do morro e da periferia.

O primeiro exemplo é o samba “Delegado Chico Palha”, composto em 1938 por Nilton Campolina e Tio Hélio, que já denunciava naquela época a brutalidade da polícia e a repressão aos cultos afro-brasileiros:

Delegado Chico Palha, sem alma sem coração
Não quer samba nem curimba na sua jurisdição
Ele não prendia, só batia
Ele não prendia, só batia
Era um homem muito forte, com um gênio violento
Acabava a festa a pau e ainda quebrava os instrumentos”.

A música foi gravada no ano 2000 pelo cantor Zeca Pagodinho no álbum “Água da Minha Sede”.

O segundo exemplo é o samba “Opinião”, composto pelo já citado Zé Kéti. A música ficou conhecida na década de 1960 por dar nome ao espetáculo dirigido por Augusto Boal, em que Zé Kéti, em parceria com a cantora Nara Leão, denunciava remoções populares e reintegrações de posse executadas de forma truculenta pela polícia. Interessante é notar que passados mais de 50 anos o modus operandi da opressão militar pouco ou nada mudou:

“Podem me prender, podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro eu não saio, não.”

Ouça a música aqui:

Pra finalizar, um grande porta voz da favela e incansável divulgador dos compositores que faziam a crônica do morro: Bezerra da Silva. No famoso samba “A semente”, composto por Felipão, Tião Miranda , Roxinho e Valmir da Purificação, o malandro denunciava a tortura e a agressão como métodos policiais pra obter a confissão de suspeitos pobres:

“Os homens desconfiaram
Ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito
E levaram todos eles para averiguação e daí…
Na hora do sapeca-iá-iá o safado gritou:
Não precisa me bater, que eu dou de bandeja tudo pro senhor”.

A ideia desse texto é mostrar que a violência policial em áreas mais pobres não ocorre apenas ocasionalmente: trata-se de um método, um padrão que vem sendo repetido há muito tempo e muito poucas atitudes têm sido tomadas no sentido de mudar essa situação. As UPPs, por exemplo, não são outra coisa senão a ratificação dessa lógica de repressão a partir da violência praticada pelo Estado. Isso não pode continuar. O Brasil precisa ser conhecido e transformado.

E pra quem quer de fato conhecer o Brasil, um bom caminho é mergulhar a fundo na cultura popular, no samba, no funk e em todo tipo de manifestação cultural que nasça nas comunidades mais pobres, nos subúrbios, favelas e periferia. Hoje, o morro ainda não tem vez.

Mas olhem bem vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar.

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Informação

Publicado em 08/04/2015 por em Direitos Humanos, Frederico Bernis.
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