a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

O fim da escravidão derrubou a Monarquia no Brasil (17/12/2015)

Aconteceu em 1889, mas parece 2015. Até as famílias são as mesmas: há mais de um século já estavam ali os Cardoso e os Caiado, antepassados de FHC e Ronaldo Caiado, distribuindo entre si as fatias do poder no país.

Pode-se comparar também com o período anterior ao suicídio de Getúlio ou ao golpe militar que expulsou João Goulart da Presidência. Resumo: uma elite rica e poderosa, insatisfeita com um governo que “ousa” conceder direitos à população mais desfavorecida, se sente ameaçada e decide derrubar esse governo.

Vamos aos fatos.

Trechos extraídos do livro “1889”, de Laurentino Gomes.

“Havia uma flagrante contradição entre a corte de Petrópolis, que se julgava europeia, e a situação social dominada pela mão de obra cativa, na qual mais de 1 milhão de escravos eram considerados propriedade privada, sem direito algum à cidadania. Nesse Brasil de faz de conta, destacava-se uma nobreza constituída, em sua maioria, por fazendeiros donos ou traficantes de escravos. Eram eles os sustentáculos do trono, que, em contrapartida, lhes conferia títulos de nobreza não hereditária, tão efêmera quanto a própria experiência monárquica brasileira.

Todo esse precário arcabouço político começou a ruir em 1888, com a assinatura da Lei Áurea, que abolia a escravidão no país. Os barões do café do Vale do Paraíba, que dependiam da mão de obra cativa, se sentiram traídos pela coroa. Se dependesse deles, a escravidão continuaria por mais alguns anos. Em caso de abolição, sustentavam que os proprietários deveriam ser indenizados pelo Estado. E isso não aconteceu. Como resultado, a Lei Áurea deu mais combustível à campanha republicana. Muitos antigos senhores de escravos, que até alguns meses antes se diziam fiéis súditos do imperador, aderiram rapidamente à República.

Ao assinar a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Isabel propiciou um derradeiro e fugaz momento de popularidade da Monarquia brasileira, já abalada pelos conflitos da Questão Militar e pelo avanço da propaganda republicana. Em razão disso, recebeu homenagens e celebrações em todo o país, em especial por parte de negros, mulatos e ex-escravos que viam na princesa a protetora que jamais haviam tido em toda a história brasileira. Como se viu nos capítulos anteriores, um deles, o mulato e abolicionista José do Patrocínio, lhe deu o título de “A Redentora”, com o qual é reconhecida até hoje entre os brasileiros. A mesma Lei Áurea, no entanto, tirou do trono o seu mais sólido pilar de sustentação: a aristocracia rural e escravagista representada, principalmente, pelos barões do café do Vale do Paraíba.

Para os senhores de escravos, a abolição havia sido um atentado contra o direito de propriedade. Eles consideravam os cativos um bem particular, tão valioso quanto as fazendas, as lavouras de café e cana, os engenhos de açúcar e outros itens de seu patrimônio. Forçados a aceitar o fim da escravidão depois de décadas de resistência, exigiam que o governo concordasse, ao menos, em indenizá-los pelos prejuízos que julgavam sofrer.

(…) Ao ver suas reivindicações ignoradas, a aristocracia rural sentiu-se traída pela Monarquia. Como resultado, nos meses seguintes à assinatura da lei, aderiu em massa à causa republicana.

(…) Um decreto de 23 de dezembro de 1889, portanto cinco semanas após a troca de regime, ameaçava jornalistas de oposição. (…) Em março de 1890, um novo decreto previa punições a todas as pessoas acusadas de pôr em circulação, pela imprensa, pelo telégrafo ou por qualquer outro meio, “falsas notícias e boatos alarmantes, dentro ou fora do país, (…) que se referissem à indisciplina do Exército, à estabilidade das instituições ou à ordem pública”. Na prática, era uma censura à imprensa, onde essas notícias e rumores frequentemente apareciam.

Fortalecido por esses decretos, o porrete da polícia passou a funcionar nas redações com frequência alarmante.

(…) As frustrações com o novo regime podem ser resumidas no telegrama que, no dia 21 de dezembro de 1889, Felicíssimo do Espírito Santo Cardoso, ex-senador do Império e capitão da Guarda Nacional em Goiás, enviou ao filho Joaquim Inácio Cardoso, alferes do Exército e ativo participante da Proclamação da República no Rio de Janeiro. “Vocês fizeram a República que não serviu para nada”, reclamava o capitão. “Aqui agora, como antes, continuam mandando os Caiado”.[341] Joaquim Inácio, já citado em outro capítulo, seria o avô do futuro presidente da República Fernando Henrique Cardoso, cujo governo, mais de um século após a Proclamação da República, contaria em Goiás com o apoio do deputado Ronaldo Caiado, ex-presidente da udr (União Democrática Ruralista) contra o mst (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que reivindicava reforma agrária, uma das muitas promessas adiadas pelo regime republicano”.

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Publicado em 17/12/2015 por em Direitos Humanos, Frederico Bernis, Política, Sem categoria.
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