a·li·e·na·do. aquele que, voluntariamente ou não, se mantém distanciado das realidades que o cercam.

Como conseguimos a mudança? (27/01/2016)

Por Paul Krugman, no El País.

Embora o idealismo seja algo bom, não é uma virtude se não vier acompanhado de realismo


 

Há ainda muitos especialistas determinados a fingir que os dois grandes partidos dos Estados Unidos são simétricos; igualmente relutantes a enfrentar a realidade, igualmente obrigados a adotar posições extremas por causa dos grupos de pressão e partidários raivosos. Claro, é uma grande besteira. Planned Parenthood não é o mesmo que os irmãos Koch, nem o democrata Bernie Sanders é o equivalente moral ao republicano Ted Cruz. E continua não existindo um homólogo democrata de Donald Trump.

Além disso, quando os especialistas que se denominam centristas falam concretamente das políticas que querem, precisam dar muitas voltas para não admitir que o que estão descrevendo são, basicamente, as posições de um cara chamado Barack Obama. Ainda assim, há certas correntes da vida política que realmente passam pelos dois partidos. E uma delas é a persistente e falsa ilusão de que uma maioria oculta de eleitores norte-americanos apoia as políticas radicais ou pode ser convencida a apoiar, desde que sejam defendidas pela pessoa adequada com fervor suficiente.

Vemos isso na direita, entre os conservadores mais extremistas, que insistem que só a covardia dos líderes republicanos impediu a revogação de todos os programas progressistas instaurados há duas gerações. Na verdade, vemos também outra variante dessa tendência entre os republicanos refinados, os dos clubes de campo, que continuam imaginando que representam a corrente majoritária do partido, mesmo quando as pesquisas mostram que quase dois terços dos prováveis eleitores das primárias apoiam Trump, Cruz e Ben Carson.

Além disso, para a esquerda, sempre existe um contingente de eleitores idealistas querendo acreditar que um líder altruísta o suficiente poderia apelar ao melhor da natureza norte-americana e persuadir os cidadãos a apoiarem uma reforma radical de nossas instituições. Em 2008, esse contingente se reuniu ao redor de Obama; agora respalda Sanders, que adotou uma postura tão purista que no outro dia criticou Planned Parenthood (que apoiou Hillary Clinton) por ser parte da “classe dominante”.

Mas como descobriu o próprio Obama assim que tomou posse, a retórica transformadora não é o caminho para a mudança. O que não significa que ele seja um fracasso. Ao contrário, foi um dos presidentes mais importantes, e fez mais para avançar os programas progressistas do que qualquer outro desde Lyndon B. Johnson.

No entanto, suas conquistas dependeram sempre da aceitação de medidas pela metade, porque são melhores do que nada: a reforma da saúde depois da qual grande parte do sistema permanece privado; uma reforma financeira que limita bastante muito os abusos de Wall Street sem destruir completamente seu poder; aumento de impostos aos ricos, mas nenhum plano de grande envergadura contra a desigualdade.

Há uma espécie de pequena controvérsia entre os democratas sobre quem pode afirmar que é o verdadeiro herdeiro de Obama, Clinton ou Sanders. Mas a resposta é óbvia: Sanders é o herdeiro do candidato Obama, mas Clinton é a herdeira do presidente Obama. (Na verdade, a reforma de saúde que foi aprovada era, em essência, uma proposta dela, não dele).

Obama poderia ter sido mais transformador? Talvez poderia ter se arriscado mais, mas a verdade é que foi eleito nas circunstâncias mais favoráveis possíveis – uma crise financeira que desprestigiou completamente seu antecessor – e, mesmo assim, enfrentou uma oposição devastadora desde o primeiro dia.

E a pergunta que os defensores Sanders deveriam fazer é se alguma vez funcionou essa teoria deles sobre a mudança. Mesmo Roosevelt, que contornou a tempestade da Grande Depressão e obteve uma maioria esmagadora, precisou ser pragmático do ponto de vista político e trabalhar não só com os grupos de pressão, mas também com os racistas do sul.

A verdade é que Barack Obama enfrentou uma oposição devastadora desde o primeiro dia
Lembrem, também, que as instituições criadas por Roosevelt eram novas, não substitutas: a Seguridade Social não substituiu as pensões privadas, ao contrário da proposta de Sanders de substituir os seguros privados pela atenção privada com financiamento público. Ah, e no começo a Seguridade Social cobria apenas a metade dos trabalhadores e, portanto, em grande parte, excluía os afro-americanos.

Para que fique claro: não quero dizer que alguém como Sanders seja inelegível, embora seja evidente que os republicanos prefeririam enfrentá-lo em vez de Clinton; sabem que o apoio que Sanders possui agora não significa nada porque ainda não enfrentou a máquina de ataque deles. Mas mesmo que se tornasse presidente, acabaria enfrentando as mesmas realidades inexoráveis que amarraram as mãos de Obama.

A questão é que, embora o idealismo seja algo bom e essencial – é preciso sonhar com um mundo melhor –, não é uma virtude a menos que venha acompanhado por um realismo pragmático em relação aos meios para alcançar esses fins. Isso é assim, mesmo quando, como fez Roosevelt, estejamos contornando um maremoto político que o acabe levando à presidência. E é ainda mais verdadeiro para qualquer democrata atual, que terá sorte se o seu partido conseguir controlar uma das câmaras do Congresso em algum momento desta década.

Sinto muito, mas não há nada de nobre em ver que os valores terminam derrotados porque preferimos os sonhos felizes em vez da dura reflexão sobre os meios e os fins. Não devemos deixar que o idealismo se transforme em uma complacência destrutiva.

Paul Krugman ganhou o Prêmio Nobel de Economia de 2008.

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Publicado em 27/01/2016 por em Economia, El País, Paul Krugman, Política, Sem categoria.
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